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A PPP do metrô que se enrola até para refazer uma calçada

A PPP do metrô que se enrola até para refazer uma calçada

Trecho reaberto de calçada reformada pelo consórcio Move São Paulo, que suspendeu obra da linha 6-laranja do metrô, na Água Branca, zona oeste de São Paulo. Foto: Léo Arcoverde/Fiquem Sabendo

A fotografia acima é de um trecho da calçada já reaberto à passagem de pedestres do entorno da futura estação Santa Marina da linha 6-laranja do metrô, cuja obra foi suspensa no último dia 5.

A paralisação da obra pelo consórcio Move São Paulo se deu por falta de dinheiro. Três das empreiteiras integrantes do consórcio estão enroladas até o pescoço com a Operação Lava Jato: Odebrecht, Queiroz Galvão e UTC Engenharia. Juntas, elas detêm 52,3% de suas ações.

O assunto deste post não é a expansão do sistema metroviário paulistano (sobre esse assunto, leia aqui), mas sim a reconstrução da calçada.

Por haver uma agência do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) quase em frente ao local da futura estação de metrô, é frequente a passagem de cadeirantes e de pessoas com outros tipos de deficiência motora (quem anda com a ajuda de muletas, por exemplo) pelo local.

Há alguns meses, quando a calçada em todo o entorno da obra foi interditada, o consórcio isolou, com uma mureta, uma estreita faixa da pista para a passagem dos pedestres. A proteção só deve ser removida com o fim da reforma da calçada.

A situação do trecho já reaberto da calçada é uma sequência de remendos e desníveis. Há ainda uma tampa de ferro de tubulação da Sabesp no meio do caminho. Tudo muito propício para um acidente.

Não se trata de um atestado de incompetência do consórcio para reconstruir uma calçada. Empresas desse porte dispõem de técnica para tocar projetos muito mais complexos. Até mesmo uma nova linha de metrô.

A reabertura de parte da calçada evidencia o pouco caso com os pedestres que passam por ali (além do INSS, há várias grandes empresas no quarteirão). É também um exemplo de que a participação da iniciativa privada não significa necessariamente zelo na execução de uma obra.

Vem a calhar no atual momento de demonização dos agentes públicos, cujos cargos (os mais cobiçados, claro) em disputa na eleição do mês que vem são disputados por empresários que se vendem como competentes administradores. Apresentam-se como alguém que está dando uma pausa na sua trajetória de lucros certos para cuidar das pessoas.

Nesta segunda-feira (12), a nova presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos Marques, detalha, em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”, o programa de concessão do governo Michel Temer, baseado em uma “taxa de retorno para atrair investidores”. Em um dos trechos, ela ressalta o espírito do programa, com a seguinte indagação: “Você investe em um fundo que não rende? Por que o investidor vai entrar em um projeto que não tem retorno?” Segundo ela, a área prioritária é a de saneamento.

Em Francisco Morato, cidade da Grande São Paulo onde a Sabesp é concessionária dos serviços de saneamento, nenhuma gota de esgoto é tratada. Em outros nove municípios da região metropolitana de São Paulo, mais da metade do esgoto é descartado no meio ambiente sem tratamento. Isso por se tratar da maior estatal da área no país, com lucro anual perto de 1 bilhão de reais em plena crise hídrica.

Mais uma vez: entregar o que quer que seja à iniciativa privada pode, sim, não representar nenhuma melhoria efetiva para quem depende dos serviços públicos.

Procurado, o consórcio Move São Paulo disse em nota que “o desnível [que aparece na fotografia] já existia antes da intervenção de obras da linha 6″. Informou também que “o Consórcio construtor está procurando uma maneira de solucionar o problema e deve sinalizar o local”.

Em tempo: a siderúrgica CSN, que já foi presidida por Maria Silvia, deve hoje mais de 32 bilhões de reais, segundo matéria da edição atual da revista Exame.

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