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Água desperdiçada pela Sabesp daria para abastecer 16 milhões de pessoas

Trecho da represa Jaguari, que faz parte do sistema Cantareira, na região de Joanópolis, no interior paulista. Foto: NBQ

Trecho da represa Jaguari, que faz parte do sistema Cantareira, na região de Joanópolis, no interior paulista. Foto: NBQ

A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) registrou uma média de perda de 53,5 bilhões de litros de água a cada mês em decorrência dos vazamentos existentes em sua rede de distribuição no período 2011-2014.

É o que revela levantamento feito pelo Fiquem Sabendo com base em dados da estatal obtidos por meio da Lei nº 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação).

Esse volume corresponde à quantidade de água tratada pela Sabesp que deixa de chegar às torneiras de seus clientes. Ele não inclui perdas decorrentes de furtos e outros tipos de fraude.

Essa média mensal de água desperdiçada é capaz de abastecer 16,3 milhões de pessoas por 30 dias. Essa população representa o triplo dos habitantes da Grande São Paulo abastecidos pelo sistema Cantareira (5,3 milhões de pessoas).

Para chegar a esse número, o Fiquem Sabendo considerou como consumo mensal de água por pessoa o volume de 3.272 litros (109 litros por dia). Esse índice foi extraído de um cálculo feito pela própria Sabesp quando questionada sobre a quantidade de água desviada por criminosos que furtam a água distribuída pela estatal.

Queda de desperdício não acompanha economia feita por clientes

Entre 2013 e 2014, a quantidade de água consumida pelos clientes do Cantareira caiu de 523,4 bilhões de litros para 422,9 bilhões de litro. Isso equivale a uma queda de 20,5% (veja no infográfico abaixo).

perda física

Consumir, em um mês, 20% a menos de água em relação à média mensal dos 12 meses imediatamente anteriores faz com que o consumidor tenha um desconto de 30% no valor da tarifa. Esse bônus foi instituído pelo governo de São Paulo, no início de 2014, como estratégia para enfrentar a crise de escassez dos reservatórios do Cantareira.

 

Solo rachado em local da represa Jaguari, que era coberto por água antes da atual crise hídrica. Foto: NBQ

Solo rachado em local da represa Jaguari, que era coberto por água antes da atual crise hídrica. Foto: NBQ

Já o volume de água que é perdido devido aos vazamentos na rede de distribuição da Sabesp caiu de 618,9 bilhões de litros de água para 545,2 bilhões de litros de água entre 2013 e 2014. A diferença entre um número e o outro representa um decréscimo de 11,8% _pouco mais do que a metade do índice de economia dos clientes do Cantareira.

Por que isso é importante?

A Lei nº 9.433/97 (Política Nacional de Recursos Hídricos) prevê que a água “é um bem de domínio público” e que um dos objetivos dessa política é “assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de água, em padrões de qualidade adequados aos respectivos usos”.

Essa mesma lei federal determina ainda que “a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades”.

Em julho de 2010, a Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) reconheceu o acesso a uma água de qualidade e a instalações sanitárias adequadas como um direito humano.

Em dezembro de 2014, ao vir a São Paulo a convite do governo Geraldo Alckmin (PSDB), a pesquisadora Newsha Ajami, da Universidade de Stanford, na Califórnia, nos Estados Unidos, avaliou como grave o alto índice de perda de água decorrente dos vazamentos no sistema de distribuição da Sabesp.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Newsha afirmou: “O sistema do Estado tem cerca de 40% a 45% de vazamentos, então eu me concentraria em aumentar a eficiência ao invés de racionar”.

Ao falar sobre o que deveria ser feito para contornar a atual crise no curto prazo, ela respondeu: “A primeira medida deveria ser consertar os vazamentos”.

O pesqueiro mudou de lugar

Em Vargem (96 km ao norte de São Paulo), o trecho da represa Jaguari, componente do sistema Cantareira, onde moradores das cidades da região pescam habitualmente se transformou desde o início da crise hídrica: uma grande área antes tomada pela água deu lugar a uma faixa de solo rachado cercada de vegetação nascente.

O carreteiro Nelson Siqueira, 54 anos, mora em Vargem e pesca nesse trecho há 25 anos. Ele diz que, devido à escassez de água, o local onde os pescadores gastam as tardes mudou de lugar. “Antes, pescávamos lá em cima”, diz, apontando para a área hoje tomada pela vegetação.

Siqueira diz que nunca viu a represa com tão pouca água. “Dá para notar a água baixando entre uma pescaria e outra.”

Morador de Extrema, em Minas Gerais, cidade vizinha a Vargem, o operador de produção Manoel Alves Silva, 52 anos, pesca no local há mais de 20 anos e também nunca se deparou com a represa nessa situação de escassez. “Quem mora em São Paulo vai rinchar neste ano, porque a água vai acabar.”

 

O carreteiro Nelson Siqueira mostra resultado de sua pescaria. Foto: NBQ

O carreteiro Nelson Siqueira mostra resultado de sua pescaria. Foto: NBQ

Sabesp não se manifesta

Procurada, a assessoria de imprensa da Sabesp não se manifestou sobre o assunto.

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