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FURO COM LAI: Entrevista com a jornalista Juliana Dal Piva

Uma reportagem especial do jornal O Globo apontou que, em 28 anos, o grupo da família Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares – parte delas com indícios de nunca terem trabalhado nos postos em que foram nomeados, segundo o jornal.

Nós entrevistamos uma das autoras da reportagem, a repórter Juliana Dal Piva, sobre o uso da LAI para produzir a investigação de fôlego – possivelmente a mais complexa matéria já feita neste ano com uso da lei de transparência. Veja a seguir.

1 – Como vocês organizaram os pedidos de LAI a serem feitos para essa matéria?

Desde de 2018, eu estava acompanhando as suspeitas de que assessores do presidente Jair Bolsonaro e de seus três filhos que possuem mandato (Flávio, Eduardo e Carlos) não atuavam, de fato, como assessores parlamentares. Já vinha fazendo pedidos de informação sobre assessores para saber os locais onde deveriam trabalhar. Mas não tinha conseguido todos os dados para comprovar que eram fantasmas.

Em dezembro de 2018, quando as movimentações atípicas do ex-assessor Fabrício Queiroz vieram à tona, outras situações surgiram, como a de Nathália Queiroz, filha do ex-funcionário de Flávio Bolsonaro, que era personal trainer e constava como assessora. Eu e a Juliana Castro seguimos investigando.

Em maio deste ano, recebi informações de uma fonte que pediu para ser mantida em sigilo sobre nomeações de diversos parentes de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do presidente, em gabinetes da família Bolsonaro. Passei a pedir por LAI para a Câmara dos Deputados e a Alerj o nome de todos os assessores que tinham sido nomeados por Jair, Eduardo e Flávio. Precisava confirmar as informações da minha fonte e também tinha a questão de nomeações antigas. Então passei a pedir tudo. Mas era bem básico. Nomes de todos os assessores e períodos de nomeação. Tentei simplificar o máximo para ter chances de ser respondida rapidamente.

Ao mesmo tempo, não sabia, mas o MP pediu a quebra de sigilo fiscal de diversos assessores, incluindo esses familiares. Fiquei sabendo quando a Ana Clara Costa deu o furo da quebra de sigilo e publicamos a primeira matéria. Publicamos na Época a primeira matéria com os 13 primeiros parentes do Bolsonaro que encontrei.

Mas minha fonte falava outros nomes que não achei e imaginei que talvez tivessem sido nomeados na Câmara dos Vereadores, no gabinete do Carlos Bolsonaro. Lá é o local mais difícil de obter informações via LAI. Mas com os primeiros dados que chegaram foi possível notar um padrão. Diversos pessoas com parentes nomeados e, por uma pesquisa prévia, muitos com indícios de serem fantasmas. Eram diversos além da família Bolsonaro e Queiroz. Muitos sobrenomes se repetiam. Dedici ampliar o projeto, ofereci para a chefia e eles toparam.

2 – Quantas pessoas fizeram os pedidos e para quantos órgãos diferentes?

Eu, Juliana Castro e Bernardo Mello. Fizemos pedidos a Câmara de Vereadores do Rio, Assembleia Legislativa do Rio e Câmara dos Deputados.

3 – Houve dificuldades nas respostas por parte de algum órgão?

Tivemos que ampliar alguns pedidos que eu fiz originalmente porque alguns não tinham sido respondidos com os cargos e também o pedido da Câmara de Vereadores que ainda não tinha sido feito até o início do projeto em si.

Na Câmara dos Deputados tivemos uma resposta em 15 dias, mas a Câmara entregou todo o período das pessoas sem distinguir em alguns casos de assessores que tinham trabalhado em outros gabinetes. Então o período, exclusivo, no gabinete do Bolsonaro tivemos que reapurar olhando no site da Câmara e reconferindo com eles. Veio tudo em pdf.

Na Assembleia Legislativa, recebemos todos os dados, mas em papel.

Na Câmara de Vereadores tivemos resistência às respostas, não cumpriram os prazos da lei e depois não justificavam, não prorrogavam. Foi um estresse. Tivemos que reclamar diversas vezes e, por isso, com medo de não termos as respostas fomos pessoalmente eu, Juliana Castro e Rayanderson pesquisar manualmente os diários oficiais de 2001 até 2018 durante pouco mais de uma semana. Foi importante, embora árduo, para achar as informações, mas também para perceber o troca-troca de parentes. Sai uma mãe e entra um filho, sai o marido, entra a mulher. Um padrão mesmo. No final, a Câmara de Vereadores enviou com muito atraso, mas obtivemos os dados pedidos.

Juliana Dal Piva conta como a Lei de Acesso à Informação foi fundamental para apuração da reportagem

4 – Como vocês sistematizaram as informações?

Os que não estavam fazendo a pesquisa nos diários passaram a pegar o material que chegava e ia transcrevendo para o excel. Não conseguimos nem fazer raspagem porque o pdf que chegou da Câmara dos Deputados era muito ruim, os programas não liam. Tivemos que transcrever manualmente.

O material que chegou impresso da Alerj também era papel, teve que ser transcrito. Todos nós participamos de todas as etapas nos ajudando. Quando um estava em uma função o outro estava em outra. A gente se completou mesmo.

5 – Como decidiram o que pedir por LAI e o que buscar por outros meios? Houve uma pesquisa prévia dos dados?

Nossos pedidos foram bem básicos. Nomes, cargos, períodos e salários. Teve sim uma pesquisa prévia para entender onde protocolar os pedidos, mas não teve muito segredo com isso porque os dados que a gente precisava eram muitos, mas bem básicos. Não há quase questionamento sobre o fato de que eram dados públicos, então nem teve contestação sobre a necessidade de entrega. Só dificuldade mesmo.

6 – A parte da reportagem que aponta indícios de os servidores não terem trabalhado também usou elementos obtidos por LAI? Se sim, quais?

Os crachás, em alguns casos, fizemos pedidos por LAI a Câmara dos Deputados. Mas também contamos com fontes que possuem acesso a esses dados e podiam ceder, mas isso já foi mais pontual, não tivemos como fazer uma pesquisa geral sobre todos os 286 porque tardaria muito. A pesquisa sobre crachás é mais específica.

Tivemos uma pesquisa dos parentescos em redes sociais e em bancos de dados como os diários de justiça que também foi bem importante por meio dos diários oficiais. Isso foi bem extenso e demorado, embora não tenho muito segredo. É uma imensa pesquisa em todos os bancos de dados acessíveis.

Foi assim que achamos os processos que mostravam pessoas com outras ocupações distintas de assessor. Também passamos a ir para rua atrás dessas pessoas para tentar falar com elas ao longo de duas semanas.

Em resumo, teve muito trabalho porque tinha muita informação antiga. Aí montamos um banco de dados mesmo que não existia. Também todas os dados que descobrimos sobre profissões fomos juntando para tentar construir alguns perfis mesmo de cada um dos assessores. Anotamos aqueles que já tinham sido alvo de matérias nossas e de outros veículos por serem fantasmas, além dos que são oficialmente investigados pelo MP.

Por fim, fomos andando cada etapa em comunicação com a nossa equipe de arte para que a planilha refletisse os dados de um jeito que eles pudessem trabalhar facilmente. Tivemos um trabalho de sincronia muito importante.

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